segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009
A CAMINHO DO NATAL
— Que bem fazes isso — dissera-lhe Neli uma vez. — Eu faria tudo devagar e, ainda por cima, metade saía mal.
— Ora — dissera a mãe a rir. — É uma questão de treino. Quando comecei, também não era assim tão despachada. Não encontrava a etiqueta com o preço e, muitas vezes, carregava nas teclas erradas. Como tinham de esperar, as pessoas resmungavam. Agora já quase consigo fazer isto automaticamente.
— Como um robô! — Neli riu-se.
E se tivesse um robô como mãe? Nunca teria dores de cabeça, nem à noite estaria tão cansada. Mas um robô não tem coração e, por isso, Neli preferia a mãe tal como era, mesmo quando, em certas noites, quase nem conseguia falar de tão cansada!
Só mais quatro dias.
Só mais três.
As filas nas caixas eram cada vez mais longas. As pessoas abasteciam-se de comida como se o Natal durasse meio ano. Com um ruído sibilante, as portas automáticas abriam e fechavam, abriam e fechavam. A mãe sentia nas costas a corrente de ar e os cartões pendurados no tecto balançavam de um lado para o outro.
Um sino de Natal, por cima da cabeça da mãe, tinha escrito a vermelho: PROMOÇÃO: Bombons, 250 gr, a preço especial.
Perto dele balançava um anjo de papel com uma faixa nas mãos, como nas igrejas, mas onde não estava escrito Paz na terra aos homens de boa vontade, mas sim Fiambre para o Natal a 15,80€/kg.
Os altifalantes debitavam música de Natal:
Noite feliz…
Cabeça de anho
Noite feliz…
Descafeinado
Papel higiénico de três folhas
O Senhor…
Lenços com monograma
Mostarda
Nasceu em Belém…
A mãe suspirava e, com um movimento rápido, limpava o suor do lábio com as costas da mão. Os clientes, impacientes, esperavam, apoiando-se ora numa, ora na outra perna. De olhar ausente, nem olhavam para a senhora da caixa, pensando apenas no regresso a casa com os sacos pesados e o eléctrico cheio.
Ufa!
Só mais três dias, e acabaria tudo.
— Vou fazer um jantar como o do ano passado — disse a mãe, à noite, virando-se para Neli. — Patê em folhas de alface, porco assado, batatas fritas, feijão e, para sobremesa, creme de chocolate de lata com peras.
No dia 24 de Dezembro, a loja só estava aberta até às quatro horas da tarde. Em seguida, os empregados podiam comprar, com um desconto de 15%, os produtos que tinham sobrado. A mãe de Neli achava que valia a pena e, por isso, tinha guardado as compras maiores para essa altura: uma pasta escolar para Neli, uma boneca, lápis de cor, um anoraque para o pai, e a comida para a ceia de Natal.
Na sala do pessoal, houve um lanche para todos os empregados.
— A batalha de Natal foi mais uma vez vencida — alegrou-se o chefe do pessoal, que proferiu mais umas palavras elogiosas.
Depois foram servidos pãezinhos com fiambre e um copo de vinho a cada um.
Após o lanche, a mãe de Neli deixou ficar os gordos sacos de compras esquecidos na sala do pessoal. Só reparou quando já estava na paragem do autocarro. “As minhas prendas! Todas aquelas coisas boas para a ceia!”, pensou assustada.
Mas a loja já estava fechada e, antes do dia 27, não voltava a abrir. Chegou a casa de mãos vazias.
Nessa noite, apesar de tudo, festejaram o Natal. O pai acendeu as velas da árvore de Natal e Neli recitou um poema. Só se lembrou das duas primeiras estrofes e depois encravou, mas a mãe achou-o muito bonito e o pai nem reparou que ainda continuava. O jantar foi mais curto do que o planeado. Por sorte, a mãe já tinha comprado o assado e havia batatas em casa, mas não houve entrada nem sobremesa. Trincaram nozes e comeram maçãs.
— Assim, não fico com o estômago tão pesado como no ano passado — disse o pai. — Comidas pesadas não me caem bem.
Também não havia muito que desembrulhar.
Por isso, sobrou tempo. Muito tempo.
Neli foi buscar o jogo “Memory” que recebera no Natal anterior. Durante o ano inteiro, esperara, em vão, todos os domingos, que alguém tivesse tempo para jogar com ela.
Agora, os pais tinham tempo.
O pai nunca tinha jogado “Memory”. Ao fim de algum tempo, Neli já tinha encontrado sete pares de cartas, a mãe três, e o pai, que geralmente queria ganhar sempre, procurava constantemente no sítio errado.
Tentava alguns truques, pondo, sem ninguém dar conta, migalhinhas de pão em cima das cartas que tinha decorado, ou pousava as mãos na mesa, de forma a que o polegar indicasse a direcção em que estava uma determinada carta. Mas Neli descobriu-lhe a jogada. Jogaram mais duas ou três vezes e o pai não se zangou por perder sempre. Depois, ainda jogaram o jogo do assalto.
À meia-noite, o pai apagou a luz e ficaram a olhar pela janela. A neve reflectia uma luz clara e ouviam-se os sinos a tocar.
— A esta hora, há quase dois mil anos, nasceu Jesus — disse a mãe, e Neli reparou que, afinal, a mãe estava contente por ser Natal.
Ao ir para a cama, Neli disse:
— Este foi um Natal muito bonito.
— A sério? — perguntou a mãe, admirada. — Mas não houve ceia nem prendas quase nenhumas.
— Mas houve muito tempo — respondeu Neli.
Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987
(Tradução e adaptação)
terça-feira, 2 de Junho de 2009
quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009
segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008
NA ROTA DOS BLOGUES AMIGOS!
O semanário Expresso publicou no passado sábado 22 de Novembro, na página 14 do seu Caderno de Economia, um artigo assinado por Nicolau Santos intitulado “As pessoas são o melhor das empresas?” (não encomendei o artigo mas bem parece que o fiz)..Alguns trechos que extraí:.“a comunicação é das áreas mais fundamentais para gerir os recursos humanos” ("Engagement begins with understanding. All the people in an organization need to know as much about the big picture and critical systems of business as the leaders, so they can see how they “fit” and why they’re important.")…“É importante dizer para onde a empresa vai, quais os seus compromissos.” (A força, o poder de uma estratégia depende também do alinhamento da equipa no cumprimento, na compreensão do que é essa estratégia e do que é que ela implica.)…“as valências das pessoas a contratar. “É muito perigoso que os candidatos só tenham capacidade técnica.”…“E o objectivo destas deveria ser “fornecer um sonho, alinhar recursos e motivar pessoas”, porque, como acrescenta, “nós somos sobregeridos e subliderados.” (Só com uma cultura forte e uma comunicação eficaz se consegue conciliar sintonia de propósitos, convergência de vontades, concerto de motivações, com flexibilidade organizacional e com rapidez organizacional.)…“por causa do nível de salários em Portugal” muitos profissionais estão a sair para o estrangeiro. “Portugal tem de ter salários próximos da média europeia, sob o risco dos nossos crânios emigrarem. Já está a acontecer.” (As pessoas não emigram só por causas dos salários, é mais complexo, muito mais complexo do que isso. É também a rejeição da politiquice, a rejeição da falta de estratégia, a rejeição das negociatas, a rejeição da ausência de uma carreira, a rejeição da ausência de planeamento, ...).Os portugueses ganham pouco, mas o pouco que ganham é absurdamente elevado face ao valor criado. É do senso comum que o salário médio português é baixo, pelos padrões dos países fundadores da zona euro.O que o gráfico mostra, é como esses "magros" salários, apesar de magros, terem um peso enorme no PIB. Basta comparar as linhas do gráfico que correspondem a Portugal e aos outros países europeus.).Só aumentando a produtividade à custa da criação de valor, e não só à custa das migalhas da redução de custos. (Criar valor é mais importante que reduzir custos)…“é preciso fazer “a gestão da paixão na empresa”, porque “a competência sem paixão leva a bom rendimento mas não à excelência”. Por isso, “temos de falar mais de eficácia do que de eficiência. De atingir o objectivo mesmo que seja mais caro.” (Eu sei que isto é bê-á-bá, mas há tanta gente que se esquece da eficácia e só pensa na eficiência…).(Para onde quer que eu me vire é esse o desafio. Abandonar os mitos da eficiência, da quantidade, da uniformidade, e abraçar a eficácia, o feito à medida, o nicho, a diferenciação.).(Não é uma questão de eficiência, é uma questão de eficácia!!!)…“E tudo desagua finalmente na forma como os colaboradores não são informados dos objectivos, dos valores e da missão da empresa, nem se lhes pede a colaboração com sugestões ou se tenta perceber as suas expectativas.”…“além de se tratar de uma impossibilidade e de uma visão pequenina da vida, assim, não se vai a lado nenhum, a não ser à falência, a mais ou menos curto prazo. Num mundo globalizado, em que a concorrência exige que as empresas se dotem da massa cinzenta que lhes permita inovar para vencer, os empresários portugueses têm de pensar em captar os melhores, seja no país ou no estrangeiro, e que o barato sai caro. E têm também de assimilar que a formação não é um custo mas um investimento, pelo que anda a ser contabilizada do lado errado do balanço.”
sexta-feira, 7 de Novembro de 2008
Barack Obama
ADENDA a 8 de Fevereiro de 2009: Hoje, ao matar saudades de algumas coisas do meu blogue e do seu baú, reparei que não tinha referência ao espaço donde havia trazido este texto. O seu ao seu dono: do "cantinho" da Anabela.
sexta-feira, 3 de Outubro de 2008
PARA ONDE IREMOS?
quinta-feira, 26 de Junho de 2008
NO TEMPO DE MORRER!
Era um fim de tarde calmo, de Setembro, e eu estava naquele quarto, modesto, de casa de pescadores do Mindelo, olhando bem nos olhos aquela jovem e recebendo, em cheio, toda a força da pergunta: diga-me, quanto tempo me falta para morrer?
Alguns meses antes, numa biopsia do fémur direito, eu tinha feito um diagnóstico de sarcoma de Ewing e fora-lhe proposto amputar a perna direita por desarticulação coso femural.
Maria C. tinha 17 anos e a beleza longilínea e esquiva que marcava uma antiquíssima origem fenícia, tribalmente conservada nas famílias de pescadores de entre Lima e Mondego.
Começara a dançar no grupo folclórico e agora, quase a acabar o Liceu, sonhava ser bailarina, correr em pontas num palco iluminado, rodar como um esguio pião enlouquecido e cair, amparada, nos braços robustos do seu par.
É verdade. Maria C., naquele quarto modesto de uma casa humilde de pescadores, tinha um magnífico sonho de adolescente – ser bailarina.
De certo que ela não sabia porquê. Sabia só que uma força interior a fazia imaginar o seu corpo a mover-se ao sabor de um ritmo desconhecido mas intuído, oculto mas descoberto num recôndito pequeno espaçoda sua auto-consciência. Quero com isto dizer que Maria C. não exibia uma superficial escolha, extraída, de leve, dos meios de comunicação social e do seu oportunismo fácil, para a sedução dos jovens ainda permeáveis. Não. Maria C. vivia uma vocação, ancorada tão fundo no seu eu que ela não conhecia, sequer, as suas invisíveis raízes.
Dou comigo a pensar que esta escondida secreta origem da força que chamava aquele corpo para o ritmos e a dança, tem de resultar da articulação sucessiva da expressão das informações génicas com as quais se constrói um corpo humano. Outras informações génicas, expressam-se e constroem, por exemplo, um corpo que irá voar, como o corpo da ave que cruza os céus, desafiando a força da gravidade que a todos atrai para o solo.
O corpo do homem, esse, não voa. Mesmo quando se julga asa, na imaginação poética, é “asa que se elançou, mas não voou” (Mário de Sá Carneiro). Mas é o genoma que, ao responder, diferentemente, aos estímulos epigenéticos, logo desde que o corpo humano é uma ciência isolada, escondida nas dobras das franjas tubares de uma mulher, é o genoma, dizía, que constrói os corpos humanos, todos diferentes e, até, com psicologias diversas. O imortal Cervantes, interiorizou que um longilíneo asténico, é um sonhador triste, e um pícnico, bem arredondado, é pelo contrário, um pragmático bem disposto.
Um corpo, construído genéticamente para que nele se manifeste o desejo, inconsciente, de voar, sem asas perecíveis, como no subtíl mito helénico, mas antes em obdiência ao ritmo musical da dança, esse corpo estará a exprimir uma pura informação, que chegou por meio de uma qualquer via antiga, passada de geração em geração, usando uma “genética” ainda oculta aos nossos olhos científicos; informação que se revelava na dança ritual das jovens virgens que, Semitas, Gregos, Romanos, Celtas, celebravam em homenagem à Vida, ao Amor e à Morte. E que hoje é só a estética do movimento expressivo.
Não estará aqui o inconsciente de Jung? Penso que sim, mas não vou agora avançar mais neste argumento.
Maria C. tinha recebido um corpo assim, um corpo ligado ao ritmo, com uma estrutura neuro-muscular obdiente a uma secreta vontade de voar, de deslizar como se não tivesse peso e até, um dia de se debruçar sobre o solo, morta. Como um Cisne que não pode mais voar e, portanto, não pode mais viver.
Como conheci Maria C.?
Uma relação fortuíta e casual fez com que os Pais soubessem que tinha sido eu a fazer o diagnóstico e procuraram-me pedindo que fosse ver a filha e a convencesse a aceitar a amputação.
Como patologista vivi, muitas vezes, situações deste tipo, sempre de grande dificuldade e de pesada responsabilidade. Além do desconforto ético de ficar atravessado entre o médico que tratava o doente, de um lado, e o doente com os seus familiares, do outro.
Assim conheci Maria C.. Não acamada mas de aspecto saudável, queixando-se apenas de dores na perna que não a impediam de sair e conviver com os amigos da sua idade e do seu grupo de dança. E com o seu jovem namorado.
Pedi aos Pais que nos deixassem a sós e assegurei-a, logo, de que só queria ouvir o que tinha para me dizer, nada mais.
Com uma determminação serena disse-me que sabia que a doença daquela perna a podia matar mas que tudo o que sonhava fazer, enquanto pessoa viva, impunha o uso das duas pernas. Foi dura comigo: “sabe bem, doutor, que não poderei dançar com uma perna de pau”. “Não quero morrer”, concluíu, “aceito todos os tratamentos, mesmo os mais penosos, mas não aceito viver sem a minha perna”.
Não chorou. Apenas nos seus olhos perpassava a sombra de uma desilusão, antevendo, talvez, que mesmo conservando a perna, jamais realizar o sonho de dançar, o sonho que o seu corpo lhe exigia que cumprisse.
Fugi a detalhes técnicos e, tal como o seu médico assistente me tinha autorizado, disse-lhe que, uma vez que não consentia na amputação da perna, iria fazer radioterapia, abrindo para ela todo o leque dos efeitos secundários; mas Maria C. aceitou imediatamente.
Infelizmente sem resultado benéfico e com uma extensa radionecrose da pele da coxa. As pequenas e maléficas células do sarcoma de Ewing apareceram por todo o lado e Maria C. foi mandada para casa com a frase sacramental “já não há mais nada a fazer”.
Os Pais procuraram-me de novo, algum tempo depois. Pressnti no olhar da Mãe, que não falava, que me responsabilizava por a filha estar quase a morrer, já que não tinha conseguido convencê-la a deixar amputar a perna. O Pai, porém, pedia-me que a fosse ver a pretexto de aconselhar o tratamento da úlcera da coxa que era o que mais a incomodava.
Logo que entrei percebi que tinha sido Maria C. que manifestara a vontade de falar comigo.
A ferida estava feia e falamos da ferida algum tempo, enquanto mudava o penso e dava indicações à Mãe sobre os cuidados a ter.
Quando ficámos sós, depois de um longo silêncio de penosa expectativa, veio a pergunta directa mas serena: diga-me, quanto tempo me falta para morrer?
Não esperava esta pergunta, nem a serenidade com que foi feita. Apanhado de surpresa respondi assim:
- “Falta o tempo que tens para viver”.
E comecei a falar com palavras que me apareciam, vindas não sei de onde. E disse-lhe: “ a todos nós e não apenas a ti Maria C., o tempo que nos falta para morrer é o tempo que temos para nele viver, sem desperdiçar um segundo que seja. Não são as horas dos relógios mecânicos, nem é a sucessão dos dias e das noites, porque este planeta roda à volta da estrela que o ilumina, que fazem o nosso tempo, só o contam. Quem faz o nosso tempo é o fluir, na nossa autoconsciência, das doenças perceptivas do mundo externo, que os nossos sentidos nos oferecem em permanência, é a reflexão sobre os conteúdos que a memória apresenta na auto-consciência e é esta estranha contemplação das ideias abstractas que invento e da emoção com que as cubro, como se eu próprio fosse um outro.
Este tempo vivido não tem que ver com o tempo dos relógios que tu, Maria C., querias que eu quantificasse para ti quando perguntaste – “diga-me, quanto tempo me falta para morrer?”
Desse tempo de relógios e da sucessão dos dias e das noites, quanto te falta, não sei. Mas sei que te falta, como a todos nós, usar o tempo de viver que é a criação nossa e tem, por isso, uma dimensão infinita.
Enquanto, na tua auto-consciência, te vês a dançar o Cisne vives o teu tempo da dança que não é o tempo físico da partitura. O Cisne desliza, eleva-se, rodopia e tomba, no tempo da memória visual que não é síncrono com o da representação real, em palco. O tempo vivido, como temporalidade, expande o tempo físico e amplia o espaço real dos acontecimentos percepcionados e memorizados. O palco em que danças Maria C. é um espaço imenso e o tempo que vives, dançando sobre ele, é quase infinito.
Mas nem só de dança viverá o teu tempo de viver.
Como ser vivo tens um lugar e um tempo no mundo natural. E o mundo natural é muito belo, muito rico e muito presente à nossa volta.
Quando o tempo de cada um de nós está a extinguir-se a vinculação do corpo de cada um de nós ao mundo natural torna-se mais forte. É como se uma percepção extra-sensorial mais afinada e sensivel nos permitisse acolher as coisas e as pessoas à nossa volta numa nova e mais sensitiva auto-consciência. Este acolhimento é uma deferência para com a natureza que nos recebeu e apoiou com toda a generosidade: deu-nos o ar que respiramos, a água que bebemos, os alimentos que ingerimos, o calor e o frio, o sol e chuva e “os grandes ventos límpidos do mar”, como cantou Sophia.
Lembras-te Maria C., de quantas vezes olhaste “para o calor dos campos com a cara toda” (Pessoa) e te sentiste feliz, sem nenhum outro motivo para estares feliz além deste que era o de estares imersa na natureza como simples coisa natural?
Lembras, que eu sei. Pois lembra-te e vive, com intensidade, esses momentos mágicos de comunhão com o mundo real natural, em que o corpo não pesará e o espírito tomará conta de toda a tua auto-consciência enchendo-a de bem-estar de paz.
Falei assim, com temor. Maria C. percebeu mas nada disse.
Quando chegaram as Colegas com braçadas de flores silvestres, vi nos seus olhos, ao deixar o quarto, que as flores, mais do que as palavras das amigas, a estavam a levar para a memória dos passeios sem fim de tarde com o seu namorado, pelos campos floridos do Mindelo.
Visitei-a várias vezes até ao dia da sua morte.
Sempre a encontrei calma: e a Mãe dizia-me que ela estava muito sonhadora e que falava do mar e da praia como se estivesse, ali na cama, a olhar o pôr-do-sol.
E falava, até, em casar com o namorado que a visitava todos os dias e era rapaz de poucas falas, mas saudavelmente alegre.
Sempre a encontrei calma. Falando-me de coisas banais e da úlcera que doía e não fachava; o seu olhar, porém, dizia-me, sem dúvidas, que estva a viver o seu tempo, e à sua maneira.
Numa visita, que foi, afinal, a última, a Mãe disse-me que ela tinha pedido para ir ver o mar. E pedia-me que autorizasse essa ida que seria breve. Era outra vez Setembro, sem trubilhões de vento e com Sol já mais macio.
Ao ouvir o pedido, logo recordei o Senhor Manuel Campos, velho lavrador de Armamar, internado na minha Enfermaria de Patologia Médica do Hospital de anto António, com insuficiência cardíaca por aneurisma da aorta que lhe deformava o esterno e parecia prestes a rebentar.
Um dia, ao fim da manhã, pediu-me para mudar da cama para uma cadeira e ser levado até junto da janela. Não me disse porquê.
Assim se fez e ali esteve o Senhor Manuel por mais de uma hora, em silêncio, enquanto o trabalho na Enfermaria se desenrolava na rotina costumeira. Ninguém lhe deu atenção até que eu vi que a cabeça descaída indicava que estava morto.
O aneurisma não rebentou. Mas este homem do campi que, em toda a sua vida, tinha privado com a natureza – a poda das videiras no frígido Inverno, as sementeiras de Março, quando a terra parecia pedi-las, as colheitas do centeio, as vindimas e a festa da criação do vinho – este homem do campo quis despedir-se dessa natureza com a contemplação, amorosa e em silêncio, das poucas árvores da cerca do Hospital que podiam ser vistas da janela da Enfermaria.
Maria C. também se ia despedir. Do mar.
Morreu, serena, ao fim do dia em que os seus olhos, mais do que contemplarem, na auto-consciência, o mar, puderam vê-lo, uma última vez, em toda a sua grandiosidade natural.
“O mar, principalmente o mar, a metafísica do mar,
o seu embalo místico, na minha alma mística a uma hora mística,
talvez de noite, sem espasmos da lua para trnasfigurar-te,
ó meu simples desejo de mar!,
talvez de manhãzinha, brisa suave no espelho d’água,
primeiro barco, e qualquer coisa íntima se entreabre,
talvez na tarde morna, insípida, secular...”
Assim falou do mar a poetisa esquecida Maria da Encarnação Baptista nma obra única e solitária a que chamou “Hora Entendida.”
É, de facto, no entendimento da Hora, na vivência do tempo pessoal, que se absorve um sentido para a vida que cumpre e esgota o seu tempo.
Diga-me, quanto tempo me falta para morrer?
Faltava-te um ano, 365 dias; sei-o, agora, Maria C..
Mas quando escrevi a certidão do teu óbito, blasfemo e obscuro papel, no qual se pretende encerrar uma biografia, em vez de sarcoma Ewing e anemia arregenerativa eu quereria ter escrito, com causa de morte, assim:
Morreu porque, tendo consumido o seu tempo pessoal de viver por meio de um corpo orgânico, frágil e perecível, que regressou ao mundo natural, passou para uma outra existência, sem tempo cronológico nem espaço físico, onde as auto-consciências individuais se fundem na auto-consciência universal da qual tudo provém e à qual tudo retorna.
Para muitos de nós, será regressar a Deus. Mas Deus não pode ser nomeado por esta palavra que parece designar uma certa pessoa, à imagem das pessoas que conhecemos à nossa volta.
Sabemos, porém, desde Moisés, que a palavra Iavé designa uma qualidade, não uma pessoa. Para muitps Hebreus que testemunharam a vida e as palvras de um dos seus, que se apresentou como o meio de Iavé se tornar compreensível para a inteligência humana, Yeshua (Jesus na nossa grafia) encerrou a promessa de Iavé. Ao princípio Iavé era apenas a Palavra, o Verbo; com Yeshua passou a ser, também, o acto.
Cada um dos nossos corpos é, igualmente, acto.
Se honrarmos a promessa de amar os outros como a nós mesmos, passaremos de facto a ser Palavra. Eis porque Bento XVI afirmou, recentemente, que no amor pelo outro está a essência de Deus e a possibilidade de O conhecermos nesta forma de vida intra-mundana.
Com a Unidade de Dor, cujo 14º Aniversário hoje se comemora, o Dr. Lourença Marques deu provas do amor pelo outro que sofre.
E, ainda que não invoque nenhuma motivação transcendental, ao aliviar a dor do seu irmão sofredor. Do seu igual que precisa de ajuda, o Dr. Lourenço Marques entrou, em pleno, na relação humana de cuidado pelo outro que nenhuma neuro-ciência sabe explicar e só tem sentido no âmbito de uma visão transcendental da vida humana.
O crescimento da Unidade de Dor até um Serviço de Cuidado Paliativo foi uma evolução natural; porque fazer o bem tem de ter um suporte estrutural.
Mas que não se olvide que o essencial não é a tecnologia mas o exercício de uma actividae misteriosa: o mistério de um ser humano que acolhe, no seu afecto, comovido até às entranhas, outro ser humano que sofre e carece de ajuda.
Como lembra Délio Borges de Menezes na sua tese de Mestrado sobre a Parábola do Bom Samaritano, não foram os profissionais, como o Sacerdote ou o Levita quem usou de compaixão e cuidado com o desvalido, atacado e roubado pelos salteadores e caído semi-morto na beira da estrada; mas sim o estrangeiro, o samaritano.
No cuidado paliativo são osprofissionais que, como bons samaritanos, se debruçam sobre o outro, desvalido e sofredor, lhe cuidam as feridas com bálsamo do amor e os assistem numa estalagem com boas condições de acolhimento e permanência.
No cuidado paliativo ninguém perguntará como Maria C. “quanto tempo me falta morrer?” Mas dirá com perfeita consciência:
Como é bom viver todo este tempo que me é dado, até morrer.
DANIEL SERRÃO
IN Cadernos de Bioética: 42/Dezembro de 2006
